Documentos preservados no Arquivo Público do Paraná e agora incorporados ao acervo histórico de Campo Mourão revelam referências aos Campos de Mourão desde 1873, evidenciando a presença indígena e a importância do território ainda no período imperial.
Muito antes das ruas, das primeiras casas e da formação da cidade, Campo Mourão já aparecia nos documentos oficiais do Paraná Imperial. Registros produzidos a partir de 1873 trazem referências aos chamados “Campos de Mourão” e ajudam a reconstruir uma história que antecede em muitas décadas a formação do núcleo urbano que daria origem ao atual município.
As fontes passam a integrar, em formato digital, o acervo de pesquisa do Museu de História, Imagem e Som Deolindo Mendes Pereira e do Centro de Documentação Histórica de Campo Mourão (CDHIS).
As cópias foram obtidas junto ao Arquivo Público do Paraná, responsável pela guarda e preservação dos documentos originais, e agora estarão disponíveis em Campo Mourão para subsidiar pesquisas sobre a história do município e da região.
Entre os registros mais antigos está um documento produzido entre 28 de janeiro e 18 de março de 1873. Nele, Manoel Eugênio de Araújo e outros requerentes solicitavam ao vice-presidente da Província do Paraná autorização para explorar os campos denominados “Mourão”, com o objetivo de posteriormente adquiri-los. Os interessados afirmavam ainda que, caso comprassem as terras, destinariam parte delas à instalação de um aldeamento indígena.
O registro, com mais de 150 anos, demonstra documentalmente que a denominação “Mourão” já estava presente na administração provincial em 1873, muito antes da formação urbana e da emancipação político-administrativa do atual município.
Dois anos depois, em 18 de junho de 1875, membros da Câmara Municipal de Guarapuava manifestaram-se sobre a utilidade pública de verificar a existência dos campos denominados Mourão. O documento traz um detalhe particularmente importante: segundo o registro, a localização desses campos era conhecida pela “tradição dos índios”, na então comarca de Guarapuava.
Outro documento, produzido entre maio e junho de 1879, informa que indígenas vindos de um lugar denominado “Campo Moron” desejavam ser aldeados naquela região, sendo considerada necessária a nomeação de um subdiretor para essa finalidade.
Na década seguinte, as referências tornam-se ainda mais numerosas. Em fevereiro de 1882, o presidente da Província do Paraná encaminhou ao Ministério da Agricultura relatório sobre uma exploração realizada desde Guarapuava até as margens do rio Paraná, na região de Sete Quedas. O documento sugeria a criação de um aldeamento nos Campos de Mourão e outro às margens do rio Piquiri.
Em março daquele ano, o Ministério da Agricultura registrou que uma exploração realizada por Norberto Mendes Cordeiro havia constatado a presença de cerca de 5 mil indígenas no território a oeste de Guarapuava. A partir dessas informações, foi determinada a abertura de uma estrada de Guarapuava até o rio Piquiri, com a liberação de recursos para os serviços.
Um dos registros mais significativos informa que, também em 1882, a picada entre Campo Moirão e Laranjeiras já estava concluída. Segundo o documento, o trabalho havia sido realizado pelo cacique Jong-Jó e seu grupo, evidenciando a participação indígena na abertura dos caminhos que atravessavam aquele território.
No mês seguinte, o presidente da Província comunicou ao Ministério da Agricultura que os recursos destinados à fundação de dois aldeamentos — um no Campo Mourão e outro nas proximidades do rio Piquiri — e à abertura de uma estrada entre Guarapuava e o rio Paraná eram insuficientes, solicitando aumento da verba.
As referências prosseguem em 1884, quando Luiz Daniel Cleve, diretor dos índios de Guarapuava, relatou a situação das populações indígenas da região e afirmou que pretendia fundar mais dois aldeamentos, um deles em Campo Mourão e outro no Baixo Piquiri.
O conjunto documental chama atenção para um aspecto fundamental da memória regional: a história de Campo Mourão não começa com a formação da cidade. Muito antes da ocupação urbana e das transformações econômicas do século XX, esse território já era conhecido, percorrido e habitado por populações indígenas e aparecia em requerimentos, correspondências, relatórios de expedições e decisões administrativas do governo provincial.










































































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